É dever, não é calúnia: Justiça tranca ação penal contra síndica que atuou para proteger adolescente

É dever, não é calúnia: Justiça tranca ação penal contra síndica que atuou para proteger adolescente

O Tribunal de Justiça do Amazonas, por meio da 3ª Turma Recursal dos Juizados Especiais, concedeu habeas corpus e determinou o trancamento de ação penal por calúnia movida contra uma síndica de condomínio em Manaus que comunicou às autoridades a presença de uma adolescente desacompanhada em situação de risco nas áreas comuns do prédio.

O remédio heróico foi usado pelo advogado Christhian Naranjo de Oliveira, em favor da Síndica, sob entendimento de constrangimento ilegal praticado pelo 2º Juizado Especial Criminal de Manaus, tese aceita pela Turma Recursal do Amazonas. 

A paciente havia sido denunciada por suposta prática do crime previsto no art. 138 do Código Penal, sob a alegação de que teria disseminado falsa notícia de crime ao acionar o Conselho Tutelar e a polícia. A queixa-crime foi recebida pelo 2º Juizado Especial Criminal, que chegou a designar audiência e admitir a formulação de proposta de transação penal.

Segundo os autos, a síndica registrou o ocorrido no livro de ocorrências do condomínio e acionou o Conselho Tutelar após encontrar a adolescente desacompanhada em horário noturno, cumprindo o dever imposto pela Lei Municipal nº 2.776/2021, que obriga síndicos a comunicar às autoridades situações de risco envolvendo crianças e adolescentes.

Ao analisar o habeas corpus, o relator Flávio Henrique Albuquerque de Freitas destacou que o crime de calúnia exige imputação falsa e dolosa de fato definido como crime, com a intenção específica de ofender a honra da vítima — elementos inexistentes no caso. Para o colegiado, a conduta da síndica limitou-se à comunicação objetiva de um fato, sem qualquer acusação direta ou deliberada contra a querelante.

A decisão ressaltou que o art. 23, inciso III, do Código Penal exclui a ilicitude quando o agente atua em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de direito, circunstância plenamente configurada. Também foi considerado relevante o fato de que, na esfera cível, o Juízo do 7º Juizado Especial Cível de Manaus já havia reconhecido a licitude da conduta, julgando improcedente pedido de indenização por danos morais baseado nos mesmos fatos.

Para a Turma Recursal, a manutenção da persecução penal, diante da atipicidade manifesta da conduta, configurava constrangimento ilegal, justificando o trancamento da ação penal pela via do habeas corpus. O colegiado citou ainda precedente do Superior Tribunal de Justiça, segundo o qual a comunicação de fato aparentemente criminoso à autoridade competente constitui exercício regular de direito, salvo demonstração de abuso ou dolo, o que não se verificou no caso.

Com a decisão, a ação penal  foi definitivamente arquivada. O julgamento firmou a tese de que não configura calúnia a conduta de síndico que, no exercício de suas funções, comunica às autoridades fato envolvendo adolescente em situação de risco, reforçando que o dever de proteção não pode ser criminalizado.

Recurso 0601486-69.2025.8.04.9002

Leia mais

Cármen Lúcia aponta questionamento tardio da defesa no Caso Fred e rejeita recurso de condenados

Ministra destaca intervalo de 12 anos sem contestação das irregularidades da instrução; decisão mantém penas de 33 anos e sete meses de prisão para...

STF barra pedido de aluguel social para famílias removidas pela Prefeitura de Manaus

Nunes Marques considera inadequada a via utilizada pela Defensoria e entende que ocupação recente não está abrangida pelas medidas invocadas na ADPF 828. O ministro...

Mais Lidas

Justiça do Amazonas garante o direito de mulher permanecer com o nome de casada após divórcio

O desembargador Flávio Humberto Pascarelli, da 3ª Câmara Cível...

Bemol é condenada por venda de mercadoria com vícios ocultos em Manaus

O Juiz George Hamilton Lins Barroso, da 22ª Vara...

Destaques

Últimas

Fachin homologa delação de investigado no caso Master

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, decidiu nesta sexta-feira (6) homologar a delação premiada do...

Justiça Federal rejeita ação de improbidade contra Bolsonaro

A Justiça Federal decidiu rejeitar na quinta-feira (5) uma ação de improbidade administrativa protocolada pelo Ministério Público Federal (MPF)...

Justiça Eleitoral terá atendimento remoto em Libras

Pessoas surdas ou com deficiência auditiva poderão contar com intérpretes de Língua Brasileira de Sinais (Libras) durante o atendimento...

Advogada é condenada a retirar publicação nas redes sociais que incentivava demissões por convicção política

A 1ª Vara do Trabalho de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, determinou que uma advogada retire de suas redes...