O Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM) denunciou 16 investigados no âmbito da Operação Erga Omnes, deflagrada para apurar suposta organização criminosa voltada ao tráfico interestadual de drogas, lavagem de dinheiro, corrupção e obtenção de informações sigilosas de processos judiciais.
A denúncia foi apresentada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) à Vara de Delitos de Tráfico de Drogas de Manaus.
Segundo o MP, a investigação teve início após abordagem policial realizada no ano de 2025, quando policiais militares identificaram movimentação considerada suspeita na zona oeste de Manaus envolvendo transporte de entorpecentes. A partir do flagrante de Bruno Alexandre da Silva Candeira, preso com tabletes de skunk e armas de fogo, a apuração teria revelado estrutura organizada, com divisão de tarefas, atuação interestadual e utilização de empresas para ocultação patrimonial e circulação de recursos ilícitos.
A denúncia atribui a liderança do grupo a Allan Kleber Bezerra Lima, apontado como responsável pelo comando financeiro, operacional e logístico da organização. Conforme o Gaeco, a estrutura investigada seria dividida em núcleos específicos de atuação, entre eles núcleo de comando, núcleo operacional, núcleo de lavagem de capitais e operadores financeiros, além de um núcleo voltado ao acesso indevido a informações sigilosas no sistema de Justiça.
No núcleo operacional, o Ministério Público aponta Bruno Alexandre da Silva Candeira, Messias Daniel da Silva Alves, Luana Ferreira Tavares, Daniel da Silva Sansereth e Carlos Victor Vieira da Silva como responsáveis pela execução material do tráfico, transporte de drogas e apoio logístico às cargas ilícitas. Segundo a acusação, veículos eram utilizados especificamente para a movimentação de entorpecentes e armamentos ligados ao grupo.
Um dos principais pontos da denúncia envolve a existência de um suposto núcleo voltado à obtenção de informações sigilosas de processos judiciais. Segundo o MPAM, integrantes da organização teriam oferecido vantagens indevidas ao servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas Izaldir Moreno Barros para obtenção antecipada de dados relacionados a investigações e movimentações processuais em segredo de justiça.
A acusação atribui às pessoas de Núbia Rafaela Silva de Oliveira e Lucila Meireles Costa atuação na interlocução entre integrantes da organização e o servidor investigado. Conforme a denúncia, conversas extraídas de aparelhos celulares indicariam articulação voltada ao acompanhamento de investigações e processos de interesse do grupo.
A peça acusatória também menciona a atuação da advogada Adriana Almeida Lima em contatos relacionados ao acompanhamento de processos e à obtenção de informações privilegiadas no âmbito do Tribunal de Justiça.
Além das acusações relacionadas ao tráfico e ao acesso indevido a informações sigilosas, o MP sustenta que o grupo utilizava empresas para conferir aparência lícita ao patrimônio e às movimentações financeiras. Entre as empresas mencionadas estão A.F.S. Pinho Ltda., B.G Veículos e Expresso Norte Transporte. Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) do Coaf apontariam movimentações consideradas incompatíveis com a renda declarada dos investigados.
Entre os denunciados também está o policial militar Osimar Vieira Nascimento, apontado como integrante da estrutura de apoio da organização criminosa. Segundo a acusação, ele utilizaria sua condição funcional para auxiliar operações ligadas ao grupo investigado.
Em manifestação apresentada separadamente, o Gaeco esclareceu que a investigação inicialmente envolvia 26 investigados, mas a denúncia foi oferecida apenas em relação a 16 deles. O MP afirmou expressamente que não houve arquivamento em relação aos nomes não denunciados, sustentando a necessidade de aprofundamento probatório quanto à situação jurídico-penal dessas pessoas.
Entre os investigados ainda não denunciados estão Anabela Cardoso Freitas, Alcir Queiroga Teixeira Júnior, Sander Galdencio Candido de Brito, Cristiano Luan da Silva Cacau e José Edmilson de Vasconcelos Júnior. Em relação a eles, o Ministério Público pediu substituição das prisões preventivas por medidas cautelares diversas.
O Gaeco também requereu autorização judicial para utilização de “prova emprestada” oriunda de outros processos relacionados ao tráfico de drogas e às apreensões envolvendo Bruno Alexandre da Silva Candeira, Carlos Victor Vieira da Silva e Daniel da Silva Sansereth. Segundo o MP, os elementos possuem pertinência temática com os fatos investigados e podem auxiliar na apuração da organização criminosa e dos crimes de lavagem de dinheiro.
Ao final, o MPAM requereu o recebimento da denúncia e a condenação dos acusados pelos crimes de organização criminosa, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, corrupção, violação de sigilo funcional e posse ilegal de arma de fogo, conforme a participação individual atribuída a cada denunciado.
A denúncia e os pedidos cautelares ainda serão analisados pela Vara de Delitos de Tráfico de Drogas de Manaus. Até eventual condenação definitiva, os investigados permanecem presumidos inocentes, nos termos do artigo 5º, inciso LVII, da Constituição Federal.
Processo: 0013553-31.2026.8.04.1000
