Banco Central vê ataque institucional após liquidação do Master e pede esclarecimentos ao STF

Banco Central vê ataque institucional após liquidação do Master e pede esclarecimentos ao STF

O Banco Central do Brasil passou a avaliar internamente que sua atuação na liquidação do Banco Master vem sendo alvo de questionamentos institucionais atípicos, após a transferência do caso para o Supremo Tribunal Federal. Nesse contexto, a autarquia apresentou embargos de declaração ao ministro Dias Toffoli, pedindo esclarecimentos sobre a decisão que determinou a realização de uma acareação no âmbito da investigação.

O Banco Central sustenta que não se recusa a cumprir a ordem judicial, mas afirma que a decisão carece de definição objetiva quanto ao seu alcance. Segundo o órgão, não foi indicado qual seria a divergência concreta de versões que justificaria a acareação, nem ficou claro em que condição o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino Santos, participaria do ato — se como testemunha, investigado ou representante institucional. Para evitar o que classificou como “armadilhas processuais”, o BC pede que o STF esclareça, ajuste ou revogue a determinação.

A acareação foi marcada para a próxima terça-feira (30) e envolverá, além do diretor do BC, o controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa. A medida causou surpresa entre integrantes da autarquia e entre juristas, já que esse instrumento costuma ser utilizado para confrontar versões divergentes após depoimentos prévios, o que não ocorreu no caso. A decisão foi tomada por ofício, sem provocação da Polícia Federal ou da Procuradoria-Geral da República.

Nos bastidores, dirigentes do Banco Central avaliam que a autarquia passou a ser colocada sob suspeita justamente após ter decretado, em 18 de novembro, a liquidação do Banco Master. A medida foi adotada depois de meses de fiscalização e reuniões técnicas, diante da constatação de problemas graves de liquidez e de supostas fraudes bilionárias em ativos de crédito. Investigadores apontam que cerca de R$ 12 bilhões em créditos teriam sido artificialmente criados e posteriormente repassados ao BRB.

Apesar de afirmarem ter segurança técnica quanto à decisão, integrantes do BC veem risco de que o foco da investigação seja deslocado da atuação do banco liquidado para a conduta do próprio regulador. A leitura interna é de que estaria em curso uma tentativa de requalificar a liquidação como precipitada ou excessiva, argumento que o BC rebate com base na gravidade das irregularidades identificadas.

Paralelamente, o caso também é analisado pelo Tribunal de Contas da União. O ministro Jhonatan de Jesus solicitou explicações ao Banco Central e levantou questionamentos sobre a proporcionalidade da medida, sem que haja, até o momento, deliberação colegiada definitiva. O BC informou já ter encaminhado resposta formal ao TCU.

O episódio amplia o debate sobre os limites da atuação do regulador do sistema financeiro, o papel do STF em investigações dessa natureza e os efeitos institucionais de decisões tomadas sob sigilo. Para o Banco Central, mais do que a defesa de um ato administrativo específico, está em jogo a autonomia técnica da autoridade monetária e a previsibilidade do regime de supervisão bancária.

Leia mais

Ainda que a punição por improbidade dolosa esteja prescrita, o dever de reparar o dano permanece

Sentença da Justiça Federal no Amazonas manteve ressarcimento de R$ 3,5 milhões mesmo após reconhecer prescrição das sanções contra ex-gestor; decisão está sob recurso...

Banco não pode alegar descuido de cliente para negar devolução quando falha na prevenção de golpe

Juíza Irlena Leal Benchimol reconheceu falha na segurança do Bradesco, mas considerou que a correntista também contribuiu para o golpe. Uma correntista enganada por um...

Mais Lidas

Justiça do Amazonas garante o direito de mulher permanecer com o nome de casada após divórcio

O desembargador Flávio Humberto Pascarelli, da 3ª Câmara Cível...

Bemol é condenada por venda de mercadoria com vícios ocultos em Manaus

O Juiz George Hamilton Lins Barroso, da 22ª Vara...

Destaques

Últimas

AGU pede ao STF solução para falta de R$ 533 milhões destinados a pagamentos de Juízes

Judiciário federal e Ministério Público da União informaram insuficiência orçamentária para cumprir decisões sobre vantagens remuneratórias; manifestação foi apresentada...

Comissão aprova atendimento virtual 24 horas a mulheres vítimas de violência

A Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 1292/26, que...

Comissão aprova projeto que prevê apoio a profissionais da educação vítimas de violência

A Comissão de Cultura aprovou o Projeto de Lei 7114/25, que cria o Programa Nacional de Apoio Jurídico, Psicológico...

Comissão aprova dispensa de custas processuais para medidas protetivas da Lei Maria da Penha

A Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher aprovou o Projeto de Lei 2863/26 prevê a isenção de custas...