STJ: Divulgação de dados pessoais não sensíveis não gera dano moral presumido

STJ: Divulgação de dados pessoais não sensíveis não gera dano moral presumido

A Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça reafirmou, em julgamento realizado neste mês de novembro, que a disponibilização de dados pessoais não sensíveis por gestores de bancos de dados, sem consentimento prévio do titular, não configura dano moral in re ipsa. Para que haja reparação, é indispensável a demonstração de efetiva divulgação indevida e de abalo concreto aos direitos da personalidade.

O entendimento foi firmado no REsp 2.221.650/SP, sob relatoria da ministra Maria Isabel Gallotti, que conduziu o colegiado a negar provimento ao recurso de consumidor que alegava ter tido informações pessoais comercializadas sem sua autorização pela Boa Vista Serviços S.A.

LGPD e Lei do Cadastro Positivo: limites distintos para tratamento e para compartilhamento

O STJ destacou que a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018) autoriza o tratamento de dados pessoais sem consentimento em determinadas hipóteses, entre elas a atividade de proteção ao crédito (art. 7º, X). Entretanto, esse permissivo não autoriza o compartilhamento irrestrito de dados com terceiros.

A Lei do Cadastro Positivo (Lei 12.414/2011) estabelece distinções claras: gestores podem abrir cadastros de adimplemento sem consentimento (art. 4º, I); podem compartilhar apenas informações cadastrais e de adimplemento entre bancos de dados (art. 4º, III);  consulentes somente podem receber pontuação de crédito (art. 4º, IV, “a”); histórico de crédito só pode ser compartilhado com autorização prévia e específica do titular (art. 4º, IV, “b”).

O colegiado enfatizou que nenhuma dessas normas confere autorização para repasse amplo de dados pessoais a terceiros, exigindo-se rigor na verificação da finalidade e na comprovação da anuência.

Dado pessoal comum não é dado sensível

A relatora reiterou que dados pessoais comuns — como nome, telefone, endereço e renda presumida — não se confundem com dados sensíveis, definidos no art. 5º, II, da LGPD. Por isso, sua divulgação não acarreta ofensa automática à dignidade ou à intimidade do titular.

Segundo Gallotti: “Informações ordinárias, frequentemente fornecidas em cadastros diversos, não estão submetidas ao regime jurídico de sigilo próprio dos dados sensíveis.”  Assim, para que se configure dano moral, é necessário demonstrar que houve efetiva disponibilização a terceiros e que esse repasse resultou em prejuízo concreto.

Súmula 7 impede reexame de provas

O Tribunal de origem havia concluído que:não houve comprovação de disponibilização de dados pessoais a terceiros; o documento juntado pelo autor não demonstrava quando, como ou por qual plataforma houve acesso;não foi provado que os dados indicados sequer correspondiam à realidade do consumidor.

Reexaminar tais conclusões demandaria revolvimento do conjunto fático-probatório, vedado em recurso especial pela Súmula 7/STJ.

Dano moral não presume violação de dados não sensíveis

A ministra Gallotti reforçou precedente da Segunda Turma (AREsp 2.130.619/SP), segundo o qual o simples vazamento ou circulação indevida de dados pessoais não sensíveis não gera automaticamente obrigação de indenizar.

Concluiu: “A disponibilização de dados pessoais, por si só, não gera dano moral presumido. É indispensável comprovar abalo significativo aos direitos de personalidade.”

Resultado

A Quarta Turma, por unanimidade, negou provimento ao recurso especial, mantendo íntegro o acórdão do TJSP que havia julgado a ação improcedente. Participaram do julgamento os ministros Antonio Carlos Ferreira, Marco Buzzi, João Otávio de Noronha e Raul Araújo.

Leia mais

Pagamento parcial de pensão não basta para afastar prisão por dívida alimentar

Ministro Humberto Martins, do STJ, rejeita habeas corpus em caso do Amazonas no qual a defesa alegou ter quitado 80% das parcelas cobradas. Ministro Humberto...

Locador indenizará inquilino por trocar fechaduras de imóvel para cobrar aluguéis atrasados

Relatora Carla Maria Santos dos Reis considerou que a retenção de equipamentos de trabalho comprometeu a subsistência do locatário; TJAM fixou reparação de R$...

Mais Lidas

Justiça do Amazonas garante o direito de mulher permanecer com o nome de casada após divórcio

O desembargador Flávio Humberto Pascarelli, da 3ª Câmara Cível...

Bemol é condenada por venda de mercadoria com vícios ocultos em Manaus

O Juiz George Hamilton Lins Barroso, da 22ª Vara...

Destaques

Últimas

Pagamento parcial de pensão não basta para afastar prisão por dívida alimentar

Ministro Humberto Martins, do STJ, rejeita habeas corpus em caso do Amazonas no qual a defesa alegou ter quitado...

Locador indenizará inquilino por trocar fechaduras de imóvel para cobrar aluguéis atrasados

Relatora Carla Maria Santos dos Reis considerou que a retenção de equipamentos de trabalho comprometeu a subsistência do locatário;...

Facebook deve indenizar advogada por suspender perfil profissional sem comprovar infração

Justiça determinou reativação da conta no Instagram e pagamento de R$ 5 mil; uso profissional não afastou proteção do...

“OAB da Medicina”: diploma não basta para atender pacientes

Nova lei exige desempenho mínimo no Enamed para obter registro profissional; regra vale para quem ingressou no curso a...