No Amazonas, homem trans consegue realizar mastectomia que havia sido negada por plano de saúde

No Amazonas, homem trans consegue realizar mastectomia que havia sido negada por plano de saúde

Pesquisador e analista de dados, Bernardo Maia da Silva, realizou o sonho da cirurgia de mastectomia com suporte jurídico e psicológico da Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM), após ter o procedimento negado por seu plano de saúde. O Núcleo de Defesa da Saúde (Nudesa) foi essencial para garantir o direito, revertendo a negativa sob alegação de ser uma questão estética.

Aos 35 anos, Bernardo vivia o que ele chama de “interpretação de um personagem” até o momento em que conseguiu avançar em sua transição de gênero. “Era o que eu precisava fazer, porque antes não era eu; era como se fosse um personagem que eu estava interpretando, não me via em mim”, relatou.

Ao buscar a cirurgia na rede particular, enfrentou negativas sob alegação de “doença pré-existente”. Sem alternativa, procurou a Defensoria. “Fui mal atendido pelo plano, me disseram que não poderiam fazer a cirurgia. Percebendo que não iam me disponibilizar o que estava no plano de saúde, busquei a Defensoria”, contou.

No Núcleo de Defesa da Saúde (Nudesa), Bernardo encontrou acolhimento e encaminhamento jurídico que viabilizaram a cirurgia em menos de um ano. “Começamos o trâmite em agosto e, no dia 22 de março, fiz a cirurgia. Foi bem rápido, graças a Deus”, celebrou.

Desafio e Compromisso

Para Eduardo Dias, defensor público há 11 anos, o caso reflete os desafios de atuar em prol de grupos minoritários. “Judicializamos casos que a sociedade, muitas vezes, não reconhece como dignos de atenção. A Defensoria atende grupos afastados por questões morais”, observou.

O defensor destacou que a demanda de Bernardo, a segunda do tipo atendida pela DPE-AM, envolveu negar o argumento do plano de saúde de que a cirurgia era “estética”. Para isso, buscou capacitação com profissionais da Policlínica Codajás e da UEA, o que resultou em uma base legal sólida para o caso.

“Descobri que a Policlínica Codajás, que realiza já um processo de hormonização com as pessoas trans. Conversei com a Drª Dária Neves, marcamos um curso na Defensoria Pública e ela convidou outro professor da UEA, o Drº Denison Aguiar. Foi então ministrado um curso para toda a equipe da Defensoria Pública do Núcleo de Defesa da Saúde. E, a partir desse curso, conseguimos ter uma base legal para fazer uma petição para o caso e logo em seguida aparece a situação do Bernardo”, explicou.

Com apoio do coordenador do Nudesa, defensor Arlindo Gonçalves, e de uma equipe multidisciplinar, o processo demonstrou o compromisso da Defensoria com a dignidade humana. O defensor público diz que sua história começou a se cruzar com a do assistido a partir do momento que decidiu fazer o concurso para Defensoria Pública “sabendo que é um dos compromissos da Defensoria a promoção dos direitos humanas e efetivar o princípio da dignidade da pessoa humana”.

Acolhimento e Transformação

Bernardo ressaltou a acolhida no Nudesa: “Fui acolhido direto com a psicóloga. Tive acesso ao pessoal da secretaria. Sempre tinha alguém para responder as minhas perguntas, as minhas dúvidas, então eu sempre tive todo o apoio do pessoal de lá”, relembra.

Para Larissa Lins, psicóloga do Nudesa, o caso reforça a necessidade de um olhar humanizado. “No momento em que passa por um acolhimento da psicologia e do serviço social, ele entende que pode ter a receptividade em relação às emoções e sentimentos ocasionados por essa negativa que ele recebeu fora da Defensoria. Então, esse momento é importante para depois conseguirmos repassar para a equipe jurídica. Até porque esse é o momento que entendemos o quanto isso traz sofrimento, questões emocionais, informações que também são importantes para a construção de uma solicitação para a Justiça”, explica.

Reencontro

Passados quase seis meses da realização do procedimento, a gratidão e o sentimento de liberdade em poder se reconhecer conduzem Bernardo ao reencontro dos profissionais da Defensoria do Amazonas.

Em meio a sorriso e abraços ao receber Bernardo novamente no Núcleo de Defesa da Saúde, Larissa Lins destaca que o assistido “representa aquela pessoa que recebeu vários ‘nãos’ da sociedade em relação à sua expressão, bem-estar e em relação ao seu corpo”.

“Eu percebo a diferença tanto na postura física dele, quanto na questão da leveza em relação a algo que foi retirado, uma barreira mesmo. Então, é tanto fisicamente quanto na questão emocional. Sabemos que muitos nãos são recebidos assim lá fora. Aqui na Defensoria conseguimos, em conjunto com toda a equipe, encontrar esse ‘sim’ e trazer essa leveza que agora o Bernardo mostra. É uma gratidão que também devolvemos com gratidão em ver que ele confiou no nosso trabalho e que agora está bem”.

A história de Bernardo reforça a importância do acesso à Justiça e do papel fundamental desempenhado pela DPE-AM na promoção dos direitos e na garantia da igualdade perante a lei.    “É como se tivesse encontrado uma parte em mim que eu tinha perdido há muito tempo e já estava sem esperança de encontrar. A sensação é de que agora estou completo para a vida, gratidão por toda vida à Defensoria”, agradece Bernardo.

Fonte: Comunicação Social DPE-AM

Leia mais

Desistir de imóvel não significa perder o que já foi pago; comprador pode receber dinheiro de volta

A Justiça Federal no Amazonas reconheceu o direito de uma beneficiária do programa Minha Casa, Minha Vida de rescindir os contratos de aquisição e...

Universidade não pode criar barreiras para receber pedido de revalidação de diploma estrangeiro

Decisão da Justiça Federal determina que instituição deve receber o requerimento e analisar se o candidato preenche os requisitos legais, sem criar restrições não...

Mais Lidas

Justiça do Amazonas garante o direito de mulher permanecer com o nome de casada após divórcio

O desembargador Flávio Humberto Pascarelli, da 3ª Câmara Cível...

Bemol é condenada por venda de mercadoria com vícios ocultos em Manaus

O Juiz George Hamilton Lins Barroso, da 22ª Vara...

Destaques

Últimas

CNJ manda reapurar passivos de licenças de magistrados acumulados desde 2015

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) estabeleceu regras para a reapuração, atualização, auditoria e pagamento de passivos funcionais de...

Desistir de imóvel não significa perder o que já foi pago; comprador pode receber dinheiro de volta

A Justiça Federal no Amazonas reconheceu o direito de uma beneficiária do programa Minha Casa, Minha Vida de rescindir...

Universidade não pode criar barreiras para receber pedido de revalidação de diploma estrangeiro

Decisão da Justiça Federal determina que instituição deve receber o requerimento e analisar se o candidato preenche os requisitos...

Cadastro Ambiental Rural não pode se sobrepor ao reconhecimento de terras indígenas

O Cadastro Ambiental Rural (CAR) não pode ser utilizado para enfraquecer a proteção constitucional conferida às terras indígenas nem...