Em São Paulo, Igreja Universal deve devolver R$ 204 mil doados por ex-frequentadora de cultos

Em São Paulo, Igreja Universal deve devolver R$ 204 mil doados por ex-frequentadora de cultos

Coação é toda ameaça ou pressão injusta exercida sobre um indivíduo para forçá-lo, contra a sua vontade, a praticar um ato ou realizar um negócio. O que a caracteriza é o emprego da violência psicológica para viciar a vontade.

Assim entendeu o juiz Carlos Alexandre Bottcher, da 4ª Vara Cível de São Paulo, ao condenar a Igreja Universal do Reino de Deus a devolver R$ 204 mil doados por uma ex-frequentadora dos cultos. Ela alegou ter sido coagida a efetuar as doações entre 1999 e 2018, o que teria comprometido todo o seu patrimônio.

A igreja negou a coação e disse que as doações ocorreram de forma livre e espontânea. Ao julgar a ação procedente, o juiz considerou que a autora foi vítima de coação, especialmente em razão de “pressões psicológicas empreendidas pelos membros da igreja para realização de tais ofertas”, em uma campanha denominada Fogueira Santa.

O magistrado citou o depoimento de testemunhas de que a campanha de doações Fogueira Santa seria um espécie de sacrifício material em que o fiel espera ser honrado por uma divindade. Tal sacrifício, segundo os depoimentos, seria incentivado pelos pastores. Uma testemunha também disse que a doação era vista como prova de fé dentro da igreja.

“Infere-se que, segundo as doutrinas da ré, não basta o fiel pautar suas condutas de acordo com os ensinamentos bíblicos, pois também se reforça a necessidade de entrega de bens e valores, inclusive na sua totalidade. Tais alegações corroboram a alegação da autora de que os pastores da ré divulgam a necessidade de entrega de dinheiro para o recebimento de recompensa divina”, afirmou o magistrado.

Para o juiz, as diversas campanhas de doação promovidas pela Universal, incluindo a Fogueira Santa, configuram prática de “pressão moral injustificada” dos pastores aos frequentadores da igreja, “mesmo porque se estimula o despojamento total de seus bens em favor da organização religiosa”.

Considerando que a Fogueira Santa incentivou a doação de até todo o patrimônio do fiel como ato de fé, Bottcher considerou verossímil a alegação da autora de que o expressivo valor doado, de R$ 204 mil, correspondia ao patrimônio total acumulado ao longo de sua vida.

“É caso de reconhecer-se a nulidade, razão por que os valores deverão ser restituídos à autora com correção monetária e juros legais a partir de cada desembolso”, concluiu o juiz, que também citou os artigos 548, 549 e 1.846 do Código Civil para embasar a decisão.

Veja a sentença

Fonte: Conjur

Leia mais

Ajuizamento de múltiplas ações ambientais contra os mesmos réus exige avaliação de fragmentação

Para a Justiça não é racional o ajuizamento fragmentado de pretensões que tenham como pano de fundo o mesmo contexto fático e jurídico, especialmente...

É do acidentado o direito de escolher a seguradora para cobrar indenização do DPVAT

A Justiça do Amazonas reafirmou que vítimas de acidentes de trânsito têm o direito de escolher qualquer seguradora integrante do consórcio do DPVAT para...

Mais Lidas

Justiça do Amazonas garante o direito de mulher permanecer com o nome de casada após divórcio

O desembargador Flávio Humberto Pascarelli, da 3ª Câmara Cível...

Bemol é condenada por venda de mercadoria com vícios ocultos em Manaus

O Juiz George Hamilton Lins Barroso, da 22ª Vara...

Destaques

Últimas

Ajuizamento de múltiplas ações ambientais contra os mesmos réus exige avaliação de fragmentação

Para a Justiça não é racional o ajuizamento fragmentado de pretensões que tenham como pano de fundo o mesmo...

É do acidentado o direito de escolher a seguradora para cobrar indenização do DPVAT

A Justiça do Amazonas reafirmou que vítimas de acidentes de trânsito têm o direito de escolher qualquer seguradora integrante...

Justiça não pode rejeitar de imediato ação que aponta erro grosseiro em questão de concurso

O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) decidiu que ações judiciais em que candidatos alegam erro grosseiro ou...

Justiça suspende cobrança de IPTU em ação que aponta erro ligado ao Projeto Mapa de Manaus

A Justiça do Amazonas concedeu liminar para suspender a cobrança de parte de débitos de IPTU atribuídos a um...