Pai de motorista morto em acidente de trabalho será indenizado por dano moral

Pai de motorista morto em acidente de trabalho será indenizado por dano moral

A Terceira Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 18ª Região (TRT-GO) reformou sentença que havia negado indenização ao pai de um motorista de caminhão que morreu em acidente de trabalho. O Colegiado condenou o empregador ao pagamento de R$ 80 mil ao familiar por danos morais. A Turma  aplicou o entendimento de que o transporte rodoviário de cargas é atividade de risco e, por isso, incide a responsabilidade objetiva do empregador, conforme o Tema 932 do Supremo Tribunal Federal (STF).

O motorista morreu em 21 de agosto de 2024, após sofrer um acidente na GO-139, entre Caldas Novas e Marzagão, interior de Goiás. Ele conduzia um caminhão utilizado no transporte de materiais para construção, como terra, areia e brita, quando perdeu o controle da direção, saiu da pista e colidiu contra um barranco. Em primeira instância, a Vara do Trabalho de Caldas Novas julgou improcedente o pedido de indenização por entender que o acidente teria ocorrido por culpa exclusiva da vítima.

Inconformado com a sentença, o pai da vítima recorreu ao TRT-GO sustentando que não havia prova técnica capaz de demonstrar a culpa exclusiva do seu filho e que a atividade exercida por ele era considerada de risco. Também argumentou que a decisão de primeira instância se baseou em conclusões do inquérito policial, voltadas à responsabilização criminal, sem afastar a responsabilidade civil objetiva do empregador.

Empregador não conseguiu excluir sua responsabilidade pelo acidente

Ao analisar o recurso, o relator, desembargadorLuciano Santana Crispim, observou que o empregador não compareceu à audiência de instrução, motivo pelo qual foi aplicada a pena de confissão ficta, quando os fatos narrados pelo autorsão dados como verdadeiros. Embora essa presunção possa ser afastada por outras provas, o magistrado concluiu que o conjunto probatório não confirmou a tese de culpa exclusiva do motorista.

Ao examinar as provas, a Turma verificou que o laudo da perícia criminal concluiu não ser possível identificar materialmente a causa da perda de controle do caminhão. Também constatou que o exame toxicológico afastou a hipótese de embriaguez e que não houve comprovação da alegação de que o trabalhador teria sofrido um mal súbito durante a condução do veículo.

Outro elemento considerado pelo colegiado foi um áudio apresentado pelo pai do trabalhador, no qual o motorista relatava ao seu superior problemas no sistema de freios do caminhão. Embora esse elemento, isoladamente, não permitisse concluir que uma falha mecânica provocou o acidente, a Turma entendeu que ele reforçava a inexistência de prova segura sobre culpa exclusiva da vítima. O acórdãoainda registrou que o veículo não possuía disco de tacógrafo, equipamento que poderia auxiliar na reconstrução mais precisa da dinâmica do acidente.

O relator destacou que, segundo o Tema 932 do STF e a Súmula 44 do TRT-GO, o transporte rodoviário de cargas expõe o trabalhador a risco superior ao enfrentado pela coletividade. Com base nas provas, a Terceira Turma concluiu que o empregador não demonstrou nenhuma causa capaz de afastar sua responsabilidade. “Estabelecida a responsabilidade objetiva do reclamado e inexistindo demonstração de causa excludente do dever de indenizar, impõe-se reconhecer sua responsabilidade pelos danos decorrentes do acidente fatal”, concluiu o desembargador.

Dano em ricochete 

Reconhecida a responsabilidade objetiva do empregador, a Terceira Turma concluiu que a morte do trabalhador gerou dano moral ao pai, que sofreu diretamente os efeitos da perda do filho. No Direito, essa situação é conhecida como dano em ricochete ou dano moral reflexo. Ou seja, embora o acidente tenha atingido diretamente o trabalhador, seus familiares próximos também sofrem um prejuízo próprio decorrente da perda do ente querido.

Com esse entendimento, o colegiado fixou a indenização em R$ 80 mil, considerando as circunstâncias do caso, o porte econômico do empregador e os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade. Da decisão, ainda cabe recurso.

Processo: 0001877-77.2025.5.18.0161

Com informações do TRT-18

Leia mais

Pedido para condenar réu por crime não descrito na denúncia foge à exigida correlação, diz Justiça

A sentença penal deve guardar correspondência com os fatos narrados na denúncia, e o Ministério Público não pode, apenas nas alegações finais, ampliar a...

Não se aproveita: há erro grosseiro no uso de recurso de Juizado quando contra a sentença cabe apelação

A utilização de Recurso Inominado para contestar sentença proferida em processo submetido ao procedimento comum configura erro grosseiro e impede o aproveitamento da peça...

Mais Lidas

Justiça do Amazonas garante o direito de mulher permanecer com o nome de casada após divórcio

O desembargador Flávio Humberto Pascarelli, da 3ª Câmara Cível...

Bemol é condenada por venda de mercadoria com vícios ocultos em Manaus

O Juiz George Hamilton Lins Barroso, da 22ª Vara...

Destaques

Últimas

Pedido para condenar réu por crime não descrito na denúncia foge à exigida correlação, diz Justiça

A sentença penal deve guardar correspondência com os fatos narrados na denúncia, e o Ministério Público não pode, apenas...

Justiça mantém paternidade registral e afasta anulação baseada em arrependimento posterior

A 8ª Câmara Cível do TJRS decidiu, por unanimidade, restabelecer a paternidade registral de uma criança e a respectiva...

Empresa é condenada a indenizar passageiro após duas panes em ônibus durante viagem

Uma empresa de transporte rodoviário de ônibus, especializada em viagens intermunicipais e interestaduais, terá que pagar indenização por danos...

Justiça condena incorporadora a pagar indenização por atraso na entrega de imóvel

Uma incorporadora foi condenada ao pagamento de R$ 11 mil de indenização por danos morais em razão do atraso...