Agressor que reata com a mulher após violência doméstica não pode concluir que não será condenado

Agressor que reata com a mulher após violência doméstica não pode concluir que não será condenado

A Desembargadora Vânia Maria Marques Marinho, do Tribunal de Justiça do Amazonas, fixou a impossibilidade jurídica de se reconhecer a desnecessidade de aplicação da pena privativa de liberdade ao acusado regularmente processado por violência doméstica e que, ao depois, mesmo com a anuência da mulher, vítima dessa violência, venha a se reconciliar. Esse fato posterior, a reconciliação, não tem a força de evitar a condenação e imposição da pena pela prática do crime, especialmente quando provada a autoria e materialidade da pratica criminosa. A defesa de Jessé Oliveira havia alegado a possibilidade de se aplicar a denominada bagatela imprópria, que consistiria em se interpretar, após a violência doméstica, pela desnecessidade da pena, com a reconciliação do casal. 

O julgado firmou que os Tribunais Superiores entendem que nem o princípio da insignificância, nem o princípio da bagatela imprópria se aplicam aos casos de crimes ou contravenções penais praticados contra a mulher no âmbito das relações domésticas, ante a proteção penal que o bem jurídico se revista, como maior interessado a própria sociedade, na defesa desses valores. 

“A reconciliação do casal e a ausência de vontade da vítima em ver o agressor processado não constituem óbice à persecução penal, sob pena de desrespeito ao princípio da indisponibilidade da ação penal pública incondicionada”, como sói acontece nos crimes de violência doméstica praticados  contra a mulher. 

“A prova da autoria e materialidade do delito se depreende dos relatos da ofendida em seu termo de declaração em sede de inquérito policial, assim como no seu interrogatório em juízo, uma vez que é patente ao afirmar os fatos e o modo em que ocorreu o delito apurado”, mantendo-se a condenação e se rejeitando o pedido de aplicação do princípio da bagatela imprópria. 

A tese da bagatela imprópria consiste em se observar que o ilícito penal existe, e seja relevante, porém, circunstâncias posteriores, incidentes no caso concreto, poderiam ser avaliadas e, caso aceitas, poderiam autorizar a desnecessidade de aplicação de pena, como a tese de que o casal, pós violência doméstica, havia se reconciliado. Não há admissão da hipótese em violência doméstica. 

Processo nº 0000110-36.2019.8.04.7700

Leia o acórdão:

APELAÇÃO CRIMINAL. VIAS DE FATO. ART. 21 DO DECRETO-LEI N.º 3.688/1941. VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR. PEDIDO DE ABSOLVIÇÃO POR AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA PARA A CONDENAÇÃO AFASTADO. AUTORIA E MATERIALIDADE COMPROVADAS. ESPECIAL IMPORTÂNCIA DA PALAVRA DA VÍTIMA. DESPROPORCIONALIDADE ENTRE AS LESÕES SOFRIDAS E A PENA NÃO VERIFICADA. SANÇÃO PENAL APLICADA EM SEU PATAMAR MÍNIMO. PRINCÍPIO DA BAGATELA IMPRÓPRIA QUE NÃO SE APLICA AO CONTEXTO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. PRECEDENTES. RECONCILIAÇÃO DO CASAL QUE NÃO CONSTITUI ÓBICE À PERSECUÇÃO PENAL. APELAÇÃO CRIMINAL CONHECIDA E DESPROVIDA

Leia mais

Pedido judicial de benefício diverso do requerido ao INSS leva à extinção da ação na Justiça

A decisão aplica o entendimento consolidado pelo Superior Tribunal de Justiça no Tema 1124, segundo o qual a alteração da pretensão, acompanhada de novos...

Liberdade de expressão não protege discurso de ódio por procedência nacional, decide TRF1

O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) manteve a condenação de um empresário de Rondônia por publicações discriminatórias contra nordestinos feitas no Facebook...

Mais Lidas

Justiça do Amazonas garante o direito de mulher permanecer com o nome de casada após divórcio

O desembargador Flávio Humberto Pascarelli, da 3ª Câmara Cível...

Bemol é condenada por venda de mercadoria com vícios ocultos em Manaus

O Juiz George Hamilton Lins Barroso, da 22ª Vara...

Destaques

Últimas

Carro de aplicativo é bem de uso comum para fins eleitorais e não pode exibir propaganda de candidato

Veículos utilizados para transporte de passageiros por aplicativos são considerados bens de uso comum para fins da legislação eleitoral...

Embriaguez, alta velocidade e invasão de calçada podem levar motorista a júri por tentativa de homicídio

A combinação de embriaguez ao volante, excesso de velocidade, invasão de calçada e atropelamento de pedestres pode caracterizar, em...

Maus-tratos a animais permitem resgate sem mandado

A situação de maus-tratos causada pela privação de alimento, água e condições mínimas de higiene autoriza a entrada de...

Homicídio praticado com dolo eventual não impede aplicação de qualificadoras

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) reafirmou que o reconhecimento do dolo eventual em um homicídio não impede, por...