Faltou elementos: TJSP decide que currículo não pode fundamentar crime de falsidade ideológica

Faltou elementos: TJSP decide que currículo não pode fundamentar crime de falsidade ideológica

O Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu que currículo profissional não pode servir de base para a configuração do crime de falsidade ideológica, ainda que contenha informações inverídicas sobre formação acadêmica ou certificações.

A decisão é da 7ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo, que absolveu um executivo condenado em primeira instância com fundamento no art. 299 do Código Penal.

O caso envolvia a apresentação de currículo com dados falsos durante processo de contratação para cargo de alta gestão no mercado financeiro. Segundo a acusação, o profissional teria declarado possuir formação acadêmica e certificações exigidas para o exercício da função, o que levou à contratação e ao pagamento de remuneração elevada, posteriormente apontada como prejuízo pela empresa.

Ao reexaminar a condenação, o TJSP adotou uma linha objetiva e estritamente penal: o crime de falsidade ideológica exige, como elemento essencial, a existência de documento penalmente relevante, isto é, dotado de fé pública ou aptidão para produzir efeitos jurídicos por si só. Para o colegiado, o currículo vitae — seja impresso, digital ou veiculado em plataformas profissionais — não possui essa natureza, pois seu conteúdo é, por definição, sujeito à verificação posterior por quem dele se utiliza.

Nesse ponto, o Tribunal alinhou-se à jurisprudência consolidada do Superior Tribunal de Justiça, segundo a qual currículos e perfis profissionais não se qualificam como documento para fins penais, justamente por dependerem de conferência e validação externa. A ausência desse requisito impede o reconhecimento do próprio objeto material do delito, tornando a conduta atípica, independentemente da existência de informações falsas.

Um aspecto relevante do julgamento foi o tratamento dado à prova produzida no processo. Embora tenham sido localizados arquivos digitais de diplomas falsificados em equipamento eletrônico, o acórdão destacou que essa conduta não foi descrita na denúncia, que se limitou à imputação de inserção de informações inverídicas no currículo. Por essa razão, o Tribunal afastou qualquer possibilidade de correção da acusação em grau recursal, ressaltando os limites da emendatio e da mutatio libelli e a vedação à condenação por fato não narrado na inicial.

A decisão também evidenciou falhas no procedimento de contratação adotado pela empresa, que admitiu não ter realizado a conferência prévia das informações curriculares, presumindo sua veracidade em razão da trajetória profissional do candidato. Para o colegiado, esse contexto reforça a ausência de caráter probante do currículo e afasta sua equiparação a documento penalmente protegido.

Ao final, o TJSP fez uma distinção clara entre reprovabilidade moral e tipicidade penal. Embora tenha reconhecido que a conduta pode ser eticamente questionável e eventualmente gerar consequências nas esferas civil ou administrativa, o Tribunal afirmou que o direito penal não pode ser ampliado para suprir deficiências da acusação, sob pena de violação ao princípio da legalidade.

A absolvição foi decretada com fundamento no art. 386, III, do Código de Processo Penal, encerrando o processo criminal e reafirmando uma leitura restritiva do crime de falsidade ideológica, especialmente em contextos envolvendo relações privadas e declarações sujeitas a verificação.

Leia mais

Cármen Lúcia aponta questionamento tardio da defesa no Caso Fred e rejeita recurso de condenados

Ministra destaca intervalo de 12 anos sem contestação das irregularidades da instrução; decisão mantém penas de 33 anos e sete meses de prisão para...

STF barra pedido de aluguel social para famílias removidas pela Prefeitura de Manaus

Nunes Marques considera inadequada a via utilizada pela Defensoria e entende que ocupação recente não está abrangida pelas medidas invocadas na ADPF 828. O ministro...

Mais Lidas

Justiça do Amazonas garante o direito de mulher permanecer com o nome de casada após divórcio

O desembargador Flávio Humberto Pascarelli, da 3ª Câmara Cível...

Bemol é condenada por venda de mercadoria com vícios ocultos em Manaus

O Juiz George Hamilton Lins Barroso, da 22ª Vara...

Destaques

Últimas

Fachin homologa delação de investigado no caso Master

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, decidiu nesta sexta-feira (6) homologar a delação premiada do...

Justiça Federal rejeita ação de improbidade contra Bolsonaro

A Justiça Federal decidiu rejeitar na quinta-feira (5) uma ação de improbidade administrativa protocolada pelo Ministério Público Federal (MPF)...

Justiça Eleitoral terá atendimento remoto em Libras

Pessoas surdas ou com deficiência auditiva poderão contar com intérpretes de Língua Brasileira de Sinais (Libras) durante o atendimento...

Advogada é condenada a retirar publicação nas redes sociais que incentivava demissões por convicção política

A 1ª Vara do Trabalho de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, determinou que uma advogada retire de suas redes...