A decisão do ministro Flávio Dino, que determinou a revisão e a suspensão de verbas remuneratórias pagas fora do teto constitucional, provocou um efeito imediato nos bastidores das carreiras jurídicas: o silêncio.
Procuradas por meio da imprensa para se manifestar sobre a nova orientação do Supremo, associações representativas da magistratura, do Ministério Público e da advocacia pública evitaram assumir posição pública clara até o momento.
A ausência de respostas não foi pontual nem isolada. Pelo contrário, alcançou entidades de peso institucional, justamente aquelas que, em debates anteriores sobre remuneração, costumam reagir com rapidez e firmeza. Desta vez, porém, prevaleceu a cautela — ou a estratégia. O silêncio passou a funcionar como sinal político: indica desconforto com a decisão e preserva espaço para reação futura, seja no plano institucional, seja no debate legislativo.
Nos bastidores, a leitura é direta. A ordem do STF atinge um modelo de remuneração que se consolidou ao longo dos anos por meio de verbas classificadas como indenizatórias, mas com efeitos permanentes sobre os vencimentos. Defender abertamente esses pagamentos, no atual ambiente de escrutínio público, tornou-se um custo reputacional elevado. O silêncio, assim, evita o desgaste imediato sem significar concordância.
A nova orientação impõe aos órgãos públicos o dever de revisar parcelas sem previsão legal clara e reafirma o alcance do teto constitucional. Ao não se posicionarem, as associações deixam o campo aberto para que o debate seja travado diretamente no Supremo — que agora se vê diante de uma escolha institucional mais ampla: levar adiante a contenção dos penduricalhos ou ceder, mais uma vez, ao arranjo silencioso das exceções.
