O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ampliou de forma inédita a confrontação diplomática com aliados europeus ao elevar a disputa pela posse da Groenlândia a um ponto de ruptura nas relações transatlânticas.
Em uma série de postagens no Truth Social e ataques públicos nas últimas 48 horas, Trump não apenas reiterou sua exigência de que a Dinamarca ceda o vasto território do Ártico aos Estados Unidos, mas também divulgou comunicações privadas de chefes de Estado e teceu duras críticas contra membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte e seus governos — incluindo o Reino Unido e a Emmanuel Macron — intensificando uma crise que especialistas qualificam como um dos maiores episódios de tensão na política externa norte-americana em décadas.
A Groenlândia, uma grande ilha autônoma sob soberania do Reino da Dinamarca, é objeto de interesse estratégico e econômico há décadas. Os Estados Unidos mantêm presença militar e acesso a recursos minerais na região desde meados do século XX, mas a atual escalada — que mistura ameaças de tarifas, vazamento de correspondência diplomática e imagens geradas por inteligência artificial sugerindo anexação territorial — representa uma ruptura retórica e política com a tradição de cooperação multilateral.
Ruptura com aliados tradicionais
Na noite de segunda-feira (19), Trump ameaçou publicamente impor tarifas de importação de até 200% sobre vinhos e champanhes franceses caso Macron não aceite integrar o que ele denominou de “Conselho da Paz para a Faixa de Gaza”, uma iniciativa paralela à Organização das Nações Unidas para a reconstrução palestina, vista por críticos como uma tentativa de minar o papel institucional do organismo global.
Ao mesmo tempo, o presidente classificou a decisão do Reino Unido de transferir a soberania do Arquipélago de Chagos para as Ilhas Maurício — incluindo a base estratégica de Diego Garcia — como “ato de grande estupidez” e sinal de fraqueza, em um ataque direto à política externa de Londres e à coesão entre Washington e seus parceiros europeus.
Tática comercial como instrumento de pressão
A linha adotada por Trump combina retórica unilateral, pugna por ganhos geopolíticos e coerção econômica. Nos últimos dias, ele ampliou sua ameaça de tarifas punitivas contra uma coalizão de países europeus — incluindo Dinamarca, França, Reino Unido, Alemanha e outros membros da União Europeia e da OTAN — caso se recusem a apoiar a pretensão dos EUA sobre a Groenlândia. Essas medidas alimentam uma crescente “guerra comercial” transatlântica, com consequências políticas que ultrapassam em muito o valor econômico dos produtos atingidos.
Líderes europeus reagiram com firmeza: autoridades da União Europeia já articulam instrumentos de retaliação como o “Instrumento Anticoerção”, que permite medidas contra práticas coercitivas de grandes economias, e chefes de governo, como o britânico Keir Starmer, chegaram a classificar as ameaças tarifárias como “completamente erradas” e prejudiciais às relações entre aliados.
Crise diplomática sob o olhar do mundo
As movimentações de Trump provocaram uma resposta global. No Fórum Econômico Mundial, em Davos, a disputa pela Groenlândia tornou-se tema central de debates, ofuscando agendas econômicas e reforçando receios sobre a estabilidade da ordem internacional multilateral.
Autoridades europeias, inclusive da França e da Comissão Europeia, alertaram para os riscos de um mundo “sem regras”, no qual a política externa de grandes potências se conduz pelo uso da força econômica e pela coerção direta — em contraste com princípios do direito internacional.
Essa crise expõe, de forma aguda, tensões profundas entre a tradição de alianças estabelecida após 1945 e políticas contemporâneas que priorizam interesses unilaterais sob pretexto de segurança. No centro dessa disputa está uma questão que ultrapassa a mera posse de território: a legitimidade da ordem internacional baseada em normas e cooperação mútua.
