Justiça condena banco digital por atraso no bloqueio de conta após fraude

Justiça condena banco digital por atraso no bloqueio de conta após fraude

A instituição financeira que recebe comunicação de golpe contra um cliente deve tomar providências em tempo hábil. A demora é uma violação ao dever de segurança, configura falha na prestação do serviço e é incompatível com o dever de cooperação das empresas no combate a fraudes eletrônicas.

Com base nessa premissa, o juiz Claudio Salvetti D’Angelo, da 16ª Vara Cível do Foro Regional de Santo Amaro, em São Paulo, mandou um banco digital restituir R$ 9.999,99 a uma correntista que foi vítima do golpe do falso advogado.

A vítima sofreu o golpe por meio do WhatsApp. O estelionatário entrou em contato com ela usando o nome e a imagem do seu advogado. O criminoso induziu a correntista a fazer uma transferência de R$ 9.999,99 para sua conta, alegando que o pagamento se referia a “custas” para o recebimento de uma suposta indenização judicial.

Após perceber a fraude, a mulher agiu rapidamente: em menos de um minuto, entrou em contato com o banco de origem (aquele em que mantinha a conta), que imediatamente solicitou o bloqueio dos valores à instituição financeira recebedora.

Apesar da urgência, o banco recebedor só iniciou a análise da suspeita de fraude sete dias depois, quando o fraudador já havia esvaziado a conta, inviabilizando a recuperação da quantia. A autora da ação alegou que a instituição falhou em seu dever de diligência, pois o Banco Central estabelece um prazo de até 72 horas para o bloqueio cautelar em casos de suspeita de fraude por meio de Pix (Mecanismo Especial de Devolução — MED).

Responsabilidades pelo golpe

O juiz rejeitou as preliminares de ilegitimidade passiva e reconheceu a relação de consumo entre as partes, aplicando no caso as normas do Código de Defesa do Consumidor (CDC).

Ao analisar as responsabilidades no caso, o julgador diferenciou a atuação dos réus:

1) Instituição financeira recebedora: Foi condenada. O juiz considerou que, embora a fraude tenha sido iniciada por terceiro, a conduta omissiva da instituição recebedora, ao permitir que um prazo “demasiadamente longo” transcorresse sem providências efetivas, contribuiu diretamente para a consumação do dano;

2) Banco de origem (banco da autora): Foi excluído de responsabilidade. O julgador não vislumbrou falha na prestação do serviço, pois a transferência foi feita regularmente, com uso válido de senha e autenticação, sem que houvesse indícios que obrigassem o banco a questionar a transação;

3) Plataforma de mensagens (Meta/Facebook): Foi excluída de responsabilidade. O juiz entendeu que o aplicativo foi mero meio de contato e que a fraude não decorreu de vulnerabilidade do sistema. Além disso, conforme o Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014), o provedor de aplicações só responde por conteúdo de terceiros após ordem judicial específica de indisponibilização, o que não ocorreu no caso.

D’Angelo julgou improcedente o pedido de indenização por danos morais (que era pleiteado no valor de R$ 10 mil). Ele entendeu que, para a configuração do dano moral, deveria ter sido demonstrada uma real ofensa à honra ou a qualquer outro atributo da personalidade. A condenação por danos morais no caso em tela, segundo o juiz, resultaria na “banalização do instituto e enriquecimento ilícito do autor”.

A instituição financeira recebedora foi condenada a arcar integralmente com as custas processuais e honorários advocatícios (10% sobre o valor da condenação).

Processo 1056301-70.2025.8.26.0002

Com informações do Conjur

Leia mais

Pagamento parcial de pensão não basta para afastar prisão por dívida alimentar

Ministro Humberto Martins, do STJ, rejeita habeas corpus em caso do Amazonas no qual a defesa alegou ter quitado 80% das parcelas cobradas. Ministro Humberto...

Locador indenizará inquilino por trocar fechaduras de imóvel para cobrar aluguéis atrasados

Relatora Carla Maria Santos dos Reis considerou que a retenção de equipamentos de trabalho comprometeu a subsistência do locatário; TJAM fixou reparação de R$...

Mais Lidas

Justiça do Amazonas garante o direito de mulher permanecer com o nome de casada após divórcio

O desembargador Flávio Humberto Pascarelli, da 3ª Câmara Cível...

Bemol é condenada por venda de mercadoria com vícios ocultos em Manaus

O Juiz George Hamilton Lins Barroso, da 22ª Vara...

Destaques

Últimas

Recurso barrado sem análise do mérito não fecha caminho para habeas corpus

Por maioria, Sexta Turma do STJ acolheu posição do ministro Sebastião Reis Júnior e anulou ordem de busca domiciliar...

Pagamento parcial de pensão não basta para afastar prisão por dívida alimentar

Ministro Humberto Martins, do STJ, rejeita habeas corpus em caso do Amazonas no qual a defesa alegou ter quitado...

Locador indenizará inquilino por trocar fechaduras de imóvel para cobrar aluguéis atrasados

Relatora Carla Maria Santos dos Reis considerou que a retenção de equipamentos de trabalho comprometeu a subsistência do locatário;...

Facebook deve indenizar advogada por suspender perfil profissional sem comprovar infração

Justiça determinou reativação da conta no Instagram e pagamento de R$ 5 mil; uso profissional não afastou proteção do...