Caso Benício: perícia descarta adulteração em vídeo que polícia apontou como fraudado por médica

Caso Benício: perícia descarta adulteração em vídeo que polícia apontou como fraudado por médica

Exame oficial contrasta com declarações do delegado Marcelo Martins sobre gravação apresentada pela defesa da médica Juliana Brasil e confirma mudanças na tela de prescrição, mas não esclarece suas causas.

A suspeita de que a médica Juliana Brasil Santos teria encomendado e pago pela adulteração de um vídeo para justificar a prescrição de adrenalina por via intravenosa ao menino Benício Xavier de Freitas, de apenas 6 anos, que morreu após receber o medicamento no Hospital Santa Júlia, em Manaus, ganhou um novo elemento. Uma perícia oficial realizada no material não encontrou sinais de edição, cortes ou inserções, conclusão que contrasta com as declarações feitas pela Polícia Civil durante a investigação.

O resultado consta do Laudo nº 26-13403, elaborado pelo perito criminal Fábio Antonio Silva Ferreira, do Instituto de Criminalística Lorena dos Santos Baptista, e juntado ao processo em 20 de outubro de 2026, na 1ª Vara do Tribunal do Júri de Manaus.

Durante a investigação, o delegado Marcelo Martins de Almeida Silva afirmou que a médica havia encomendado e pago pela adulteração de uma gravação destinada a demonstrar uma possível falha no sistema de prescrição hospitalar. Ao responder aos quesitos formulados pela autoridade policial, porém, o perito foi expresso: não encontrou marcas de cortes, supressões ou inserções no arquivo examinado.

O vídeo mostra uma pessoa utilizando um computador para preparar uma prescrição de adrenalina. Inicialmente, o medicamento aparece indicado para aplicação diretamente na veia, com a dose e a quantidade de soro já preenchidas na tela. Como um caderno encobre parte do monitor, não é possível saber como esses valores foram inseridos. Em seguida, quando a pessoa escolhe a aplicação por inalação, a dose e a quantidade de soro mudam, sem que se veja alguém alterar esses campos. Depois, ao selecionar a opção “Solução”, a indicação da via de aplicação desaparece e, quando a lista é aberta novamente, somente a alternativa intravenosa aparece disponível. A perícia confirmou essa sequência, mas não conseguiu determinar o que provocou as mudanças.

O exame esclareceu ainda que o caderno colocado diante do monitor não constitui adulteração digital do vídeo, embora impeça verificar parte das operações realizadas. A perícia não identificou quem fez a gravação, quando ou onde ela ocorreu, nem qual sistema hospitalar aparece nas imagens. Por isso, não comprovou que o programa utilizado no atendimento de Benício apresentasse defeito.

A imputação de fraude processual contra Juliana Brasil já havia sido arquivada pelo Ministério Público do Amazonas, em maio de 2026. Na ocasião, o órgão considerou que a suposta falsificação seria grosseira e incapaz de induzir a Justiça a erro. A conclusão jurídica não significou reconhecimento da autenticidade da gravação.

O laudo posterior acrescentou uma constatação técnica: não foram encontrados vestígios de edição no arquivo encaminhado à perícia. Essa conclusão, entretanto, não esclarece se a demonstração foi preparada, quais operações ocorreram na parte encoberta da tela ou se o comportamento observado se repetiu durante o atendimento da criança.

Benício morreu após receber adrenalina por via intravenosa no Hospital Santa Júlia, em novembro de 2025. Juliana Brasil responde a uma acusação de homicídio qualificado, sob a imputação de dolo eventual, além de acusações de falsidade ideológica relacionadas a documentos médicos. A defesa contesta as imputações.

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