O efeito nebuloso de se associar a um aliado tão imprevisível quanto Donald Trump tornou-se mais evidente para a oposição venezuelana após a captura de Nicolás Maduro. Entre dirigentes ligados a María Corina Machado e lideranças da sociedade civil, predomina um sentimento ambíguo: alívio pela queda do ditador, combinado com desconfiança sobre os rumos políticos impostos a partir de Washington.
No núcleo duro da oposição, que negociou com a Casa Branca e chegou a acenar elogiosamente ao republicano, celebrou-se a chamada “extração cirúrgica” do herdeiro político de Hugo Chávez. A comemoração, porém, foi rapidamente temperada por incômodo diante das declarações de Trump, vistas como erráticas e potencialmente danosas à legitimidade do processo de transição.
O mal-estar se agravou após Trump afirmar, em Mar-a-Lago, que María Corina é “uma mulher muito legal”, mas sem o respeito necessário para liderar a Venezuela. Impedida de concorrer à Presidência, a líder opositora havia conseguido projetar Edmundo González como o verdadeiro vencedor do pleito considerado fraudado. Chegou, inclusive, a dedicar seu Prêmio Nobel da Paz a Trump —gesto hoje visto com constrangimento por aliados próximos.
Um ex-diplomata da oposição avalia, sob reserva, que a ausência de apoio explícito do ex-presidente americano pode até favorecer María Corina internamente, ao afastar a narrativa de que ela seria “a candidata dos EUA”. Ainda assim, o cenário permanece instável. María Corina está em local não divulgado na Europa, após deixar a Venezuela no mês passado, enquanto Delcy Rodríguez foi empossada como presidente interina, com aval do Supremo venezuelano —órgão amplamente controlado pelo chavismo.
Diante da incerteza, a oposição passou a apostar na Constituição. O texto prevê eleições em até 30 dias nos casos de “ausência absoluta” do presidente —hipótese descartada por Trump— ou, alternativamente, uma “ausência temporária”, que autoriza o vice a governar por até seis meses, prazo máximo para convocação de novo pleito. O Supremo enquadrou a situação de Maduro como ausência temporária, abrindo uma brecha jurídica para a cobrança de eleições em até 180 dias.
O obstáculo central, reconhecem opositores, é que o mesmo tribunal que validou a eleição fraudada de Maduro agora legitima Delcy Rodríguez. Por isso, ganha força a estratégia de buscar apoio internacional —União Europeia e governos latino-americanos— para pressionar Washington a não consolidar uma transição que mantenha o chavismo no poder sob nova roupagem.
Enquanto as críticas seguem majoritariamente sob anonimato, cresce a pressão pela libertação de mais de 860 presos políticos. Entre eles estão familiares de Edmundo González, a ativista Rocío San Miguel e o ex-candidato presidencial Enrique Márquez, além de 176 militares detidos por dissidência interna. Para aliados de María Corina, uma anistia ampla e irrestrita seria o primeiro sinal concreto de mudança. Até lá, resume Alfredo Romero, “a frustração de hoje é a mesma que existia antes da captura de Maduro”.
O preço Trump: oposição venezuelana celebra queda de Maduro, mas teme transição tutelada
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